“Quando entrou pela alameda de pedregulhos e parou o carro defronte do hotel, o casal de velhos que passeava pelo gramado afastou-se rapidamente e ficou espiando de longe. O velho porteiro que atendeu no balcão de recepção também teve um movimento de recuo. Ele pousou a mala no chão e pediu apartamento.” Virou para despedir-se do motorista.
O recepcionista, que fitava seu andar vacilante, mas seu porte aristocrático, suas roupas elegantes, seus óculos escuros e sua postura que impunha um respeito intimidador, cumprimentou o homem que, pacientemente, aguardava um lugar para pernoitar. Começou a perguntar-lhe seus dados pessoais para
o preenchimento da ficha de estadia no hotel. Enquanto o hóspede o fazia, ficou admirando-o, escutando sua voz grave e, ao mesmo tempo, tão suave.
No momento em que a ficha estava sendo finalizada, o senhor escutou um ganido bem próximo. Ficou irresoluto, aguardando que o ruído se repetisse. Mais um lamento e, desta vez, ele se virou para entender de onde vinha o barulho. Foi recebido por um cão de respiração ofegante, mal tratado, imundo e, além de tudo, cego.
Sem hesitar, o funcionário do hotel levantou-se para espantar o pequeno cãozinho. Sua vergonha era tanta, que suas desculpas pareciam inúteis comparadas à "invasão" do cachorro, que burlara irremediavelmente a segurança.
Para sua surpresa, foi interrompido pelo mesmo hóspede ao qual não parava de se desculpar por tão terrível incidente. O homem apenas afirmou ter intenção de adotar o pequenino animal com o qual simpatizou, com a desculpa de que "estava mesmo procurando por um cãozinho". O recepcionista, então, indagou o motivo de tanta generosidade.
- Este cachorro vive aqui pelas ruas, come da piedade de alguns comerciantes da redondeza, não é belo e ainda é cego. Mesmo assim o senhor quer mantê-lo consigo? O senhor sabe que pode ter coisa melhor.
O homem ergueu-se, virou o rosto em direção ao seu interlocutor e respondeu com um ar convicto e bondoso:
- O senhor pode não ter percebido, mas a mim também falta a visão.
E, ao dizer isso, observando o atônito recepcionista com os olhos da alma, retirou os óculos escuros, deixando à mostra a névoa de sua cegueira.
Beijãão!!
Um comentário:
E não é que dá mó orgulho ser a dupla dessa Mana!?!
yow yow yow!
Postar um comentário