Em uma ilha, sabe-se lá as coordenadas exatas de sua localização, haviam três árvores e uma pedra. A pedra, sozinha, passava a maior parte de seu tempo olhando as ondas do mar ao longe e cumprimentando as que até ela chegavam. As árvores, com completo descaso, ignoravam a existência da pobre pedra. Os anos se passaram e um naufrago chegou à ilha desespero por água e comida. Sua sorte era tremenda, uma das árvores lhe forneceu o côco e outra uma fruta qualquer, que no momento lhe caiu muito bem.
A pedra, que nada podia fazer, apenas ficou encarando a cena com um aperto dentro de si, desejando que pudesse, de qualquer forma que fosse, ajudar o homem que ali estava. Pensou durante horas, e nada que passasse em sua mente lhe agradava. A pedra chegou à conclusão de que era inútil. Tão triste estava que deixou-se desfazer pela água que nela batia o tempo todo.
Algum tempo depois, o homem, cansado, precisava dormir. Pensou de todas as formas em como contruir uma cama alta o suficiente para que os insetos ou pequenos animais que habitavam a ilha não o atingissem durante o sono. Decidiu que iria juntar o tanto de areia suficiente para elevar-se à noite e poder dormir tranquilamente. Ironicamente, o bocado de areia que lhe serviu de travesseiro vinha daquela mesma pedra que se julgara sem qualquer valor. A felicidade a deixou em tamanho estado de graça, que a pedra não aguentou a euforia. Tanta fora, que sua excitação se transformou em calor e esse, por sua vez, a levou à mais improvável metamorfose.
Quando acordou, o homem estranhou a rigidez embaixo de sua cabeça e muito ficou surpreso quando notou um pedaço de vidro do diâmetro aproximado de uma laranja. Ocorreu-lhe uma louca ideia, e não tardou a levantar de sua "cama", correndo em direção às arvores. Esperou pacientemente que o sol estivesse forte o suficiente e colou o pequeno pedaço de vidro entre o sol e uma das árvores. Repentinamente, uma pequena chama se fez no tronco da tal árvore, que em poucos minutos estava coberta com uma labareda incandescente e interminável. O homem rezava com todas as suas forças, quando, bem ao longe, conseguiu ouvir o barulho de uma monomotor que se aproximava.
A fumaça - e mais tarde a própria chama - captaram a atenção do viajante, que intrigado, resolveu aproximar-se para entender o que acontecia. Quando o fez, não tardou a voltar munido para ajudar o homem que agora lutava contra o fogo que havia se alastrado para todas as três árvores.
Anos depois, a única lembrança que o ex-náufrago levava de sua experiência era um colar com um pequeno pedaço de vidro o decorando. Uns até diziam que se o colocasse contra a luz podia-se ver um resquício de um estranho sorriso. Outros diziam que era pura loucura.